• Bruno Costa

Resiliência - Você está fazendo isso errado!



Depois de ler o artigo capa da revista Você S/A “O mito da resiliência”, (Editora Abril) edição de Maio de 2020, escrito pela jornalista Caroline Marino, eu fiquei intrigado com a forma que empregamos tal habilidade. Então decidi compartilhar com vocês alguns dos pontos que mais me chamaram a atenção ao ler o artigo.


Quando voltamos à etimologia da palavra resiliência encontramos a seguinte informação, a palavra provém do latim, Resiliens, particípio passado do verbo Resilire, “saltar para trás” ou “ricochetear”, ambas com o sentido de retornar. Observando a sua definição na física entendemos que resiliência é a capacidade de um corpo voltar ao seu estado original após sofrer alguma deformação ao ser submetido à forças extremas (como uma mola, que mesmo ao ser pressionada ou esticada ela ainda pode voltar à sua forma inicial). Já na psicologia, é a capacidade de adaptação de um indivíduo em momentos estressantes e de adversidades.


Atualmente, a definição de resiliência está entrelaçada ao esforço constante, abraçar desafios - sejam eles realizáveis ou não - e aceitar tudo sem questionamentos. Muitas vezes nós percebemos a resiliência como uma forma de viver que, de certa forma, ameniza os impactos negativos de algumas situações ao longo de nossas vidas. Interpretamos tal característica como a nossa capacidade de olhar para as coisas ruins e dizer “Isso não me afeta nem um pouco”, “Não preciso me preocupar, isso vai passar” e coisas do tipo, enterrando-nos em diversas atividades, que sozinhas já demandam muito tempo e que não temos a menor paixão em fazê-las.


A autora do artigo ainda chama a atenção para estudos que mostram que mesmo as habilidades adaptativas se tornam inadequadas quando são levadas ao extremo. Elas deixam de ser positivas quando extrapoladas, tornando-se prejudiciais para as pessoas, o que as leva a se fixarem em atividades improdutivas e, talvez, até sem um sentido real. É importante destacar que essa resiliência desmedida é o caminho que leva ao Burnout.


Mas o que é esse burnout?


A Síndrome de Burnout, também conhecida como doença do esgotamento profissional, é uma das consequências do ritmo acelerado que é tocado atualmente nas nossas vidas. É um estado de tensão emocional e estresse crônico provocado por condições de trabalho desgastantes. O próprio termo “burnout” demonstra que esse desgaste danifica aspectos físicos e psicológicos de uma pessoa (afinal, em inglês “to burn out”, significa algo como queimar por completo). Ele é exclusivo do ambiente laboral e foi criado pelo psicanalista americano Herbert Freudenberger em 1974 para descrever o adoecimento que observou em si mesmo e em colegas. O burnout é consequência de um conjunto de fatores tanto pessoais, quanto profissionais e sociais. Causado principalmente pelo perfeccionismo exagerado, muitas vezes mirando no impossível e pelo idealismo em relação à profissão. Os gatilhos do burnout são as altas demandas que vão além da capacidade de realização, ausência de apoio das lideranças, difícil processo de promoção e isolamento.



O Médico nutrólogo, homeopata e ortomolecular, com formação em Otimização Neuro-psico-fisiológica na Itália e em Terapia por Informação Biofísica na Alemanha, José Golbspan estabelece uma lista de como essa síndrome evolui e quais são os seus principais sintomas:


  1. Necessidade de provar sua capacidade constantemente;

  2. Dedicação intensificada, com predominância da necessidade de fazer tudo sozinho e a qualquer hora dia;

  3. Descaso com as necessidades pessoais (atividades como comer, dormir, sair com os amigos começam a perder o sentido);

  4. Reinterpretação dos valores, o que antes tinha valor sofre desvalorização (lazer, casa, amigos) e a única medida da autoestima é o trabalho;

  5. Vazio interior e sensação de que tudo é complicado, difícil e desgastante;

  6. Depressão, marcas de indiferença, desesperança, exaustão. A vida perde o sentido;

  7. E, por fim, o esgotamento profissional propriamente dito.

A síndrome de burnout é reconhecido pela Organização Mundial da Saúde e pelas leis brasileiras como uma doença ocupacional. Portanto permite o afastamento para a superação da doença. O real problema está na dificuldade de identificar a doença, já que muitas vezes ela é diagnosticada como depressão. As terapias com antidepressivos podem até trazer um conforto, porém o tratamento apropriado vai um pouco além.


Uma mudança no estilo de vida é fundamental (autoavaliação, motivação, ter atenção aos sinais emitidos por seu corpo), a prática de atividades físicas regular e de exercícios de relaxamento devem entrar para a rotina, pois ajudam a controlar os sintomas. Sem esquecer de observar se o ambiente profissional é a causa do estresse ou se são as atitudes do próprio indivíduo que geram a crise.


A descaracterização da resiliência ajuda a criar um clima nocivo dentro do ambiente empresarial. Derek Lusk, Ph.D. em psicologia de negócios e chefe de avaliação executiva da AIIR Consulting, diz em na entrevista com Caroline Marino que “a resiliência se torna exploração quando é mal definida dentro de uma organização tóxica”. A má colocação dessa característica pelas lideranças é a chave para fazer com que equipes ultrapassem seus limites, o que, possivelmente, os prejudicará no futuro.


Então repense a forma como você pratica a sua resiliência. Tenha em mente que se desdobrar para atender expectativas irreais e suprimir as suas próprias necessidades pode ser um caminho perigoso. E para finalizar com as palavras da autora que inspirou esse texto, “a resiliência é se recompor em momentos de estresse para, de uma forma humana e equilibrada, buscar objetivos alcançáveis e seguir em frente. Ela não pode ser usada por líderes e pelo mercado como uma desculpa para empurrar os profissionais para o excesso de trabalho e para o abuso psicológico”. Com ênfase nas palavras “resiliência não é saltar para o precipício”.


REFERÊNCIAS


IRINEU, José. 12 sinais de que você pode estar sofrendo da Síndrome de Burnout. 2015. Disponível em: <http://www.administradores.com.br/artigos/cotidiano/12-sinais-de-que-voce-pode-estar-sofrendo-da-sindrome-de-burnout/89983/>.


MARINO, Caroline. O Mito da Resiliência.Você S/A, São Paulo, p. 30-41, maio 2020. Mensal.


NABUCO, Cristina. Burnout: os sinais da síndrome que é causada pelo esgotamento no trabalho. 2015. Disponível em: <http://claudia.abril.com.br/saude/burnout-os-sinais-da-sindrome-que-e-causada-pelo-esgotamento-no-trabalho/>.

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